O ANISTIADO
Não tenho por hábito falar sobre mim mesmo e, no caso, em coluna de jornal por mim escrita, certamente não interessaria aos leitores, salvo se falarmos sobre sentimentos, princípios, valores e outras manifestações basicamente humanas. Ocorre que hoje, não consigo segurar o desejo de dizer que o Ministro de Estado da Justiça, através de publicação no Diário Oficial da União do dia 14.07.2010, resolveu “Declarar Celso Pereira anistiado político......” Anistia se diz, é perdão; outros dizem que é esquecimento; para alguns, reparação, para muitos, reconciliação. No meu caso, o que sinto com o Decreto do Governo Brasileiro é que recebi uma certidão de que contribui na resistência contra o regime de exceção e de combati a ditadura supressora de liberdades e da cidadania. Sinto-me como quem teve o reconhecimento da história, não apenas na luta, mas sobre os resultados da conquista das liberdades públicas e do Estado Democrático de Direito. Minha geração, que tinha acima dos dezoito anos nos idos de 1964, teve um papel extraordinário nas lutas de resistência e até a derrubada da ditadura militar que vitimou o País até inicio dos anos oitenta. Feira de Santana foi pródiga em cidadãos e cidadãs que lutaram contra os regime ditatorial: Posso esquecer alguns, mas não resisto a deixar de nomear Chico Pinto, Colbert Martins, Humberto Mascarenhas, Otoniel Queiroz, Sinval Galeão, Teodulo Portugal, Antonio Carlos Coelho, Normando Leão, Hosanah Leite, Luiz Pereira, Luciano Ribeiro, Iara Cunha, Celso Daltro, Moura Filho, Prof. Coutinho Estrela, Luiz Santa Bárbara, Onocencio Pereira Alves – o Batata .... Não é fácil fazer-se idéia hoje do que se passou nos anos de chumbo de 1964 até 1978. Para o que passamos, a dureza daqueles tempos marcou quase nada a juventude, com o sentimentos de rancor, ódio e revanche . A música, o teatro, a literatura, o cinema a poesia e claro a política, entre outras formas estéticas de manifestação dos sentimentos e da cultura, nos serviram de válvulas, de alento, de fogo aceso, de alimento e de aconchego para nos mantermos humanos e humanistas como somos hoje. Penso que valeu a pena, o ideal de justiça e equidade não se arrefeceram e a anistia, nos diz de modo fundo, leve mais marcante, nós fazemos a história que desejamos, ainda que com sacrifícios. Salve a virtude do perdão e salve, também, a da gratidão. A história sempre continua, com atores outros e cenários também, mas os resultados são sempre os construídos e não os que o tempo e o acaso desejaram.
Autor(a): Celso Pereira é Advogado e Conselheiro da OAB - Bahia. Escreve Quinzenalmente
|